NELSON RODRIGUES E A SENSIBILIDADE JURÍDICA
Advertência: Se você não gosta de
viajar nas ideias, saia desta página!
Um
dos meus autores favoritos é Nelson Rodrigues (1912-1980). As suas
prosas e suas peças me arrebatam a concentração como poucos
escritores podem fazê-lo. Seus contos são desconcertantes e com
finais inimagináveis, quase sempre trágicos. Eu não sou um
especialista literário, embora desejaria sê-lo. Mas uma coisa
aprendi com Nelson: a irracionalidade das relações são
fundamentais para compreender o homem.
O
homem sempre teve um fetiche pela razão. Falo em razão no sentido
amplo, como capacidade de avaliar entre causas e consequências e
traçar projetos e estratégias a partir dessa avaliação. Os
animais também avaliam causas e efeitos, mas de maneira diferente.
Costumamos chamar de instinto. Eu concordo parcialmente com Martha
Nussbaum (2013) ao afirmar que os animais têm uma “racionalidade
não humana”.
O que difere, então, a razão dos homens da “razão animal”. Creio
que seja não simplesmente avaliar causas e efeitos, mas construir
planos sobre essa capacidade. É importante rever nosso conceito de
razão para além de um dedutivismo lógico, porque as inteligências
artificiais podem fazer esse processo cognitivo tão bem como nós.
Nesse sentido, novas características distintivas devem aparecer para
criar uma “identidade humana” não animal e não artificial.
Mas
continuemos. A razão sempre esteve no pedestal de nossa cultura.
Seja com os gregos, acreditando na supremacia da alma intelectual
sobre a matéria decadente; seja com os medievos, ao reproduzir de
certo modo ensinamentos platônicos sobre o pecado da carne e a
salvação do espírito ou ainda da razão como dádiva divina, como
ensina Pico della Mirandola. Na Modernidade, não foi diferente,
lembremos de Kant que elevou a razão e a Lei Moral ao epicentro de
sua filosofia e Descartes, com sua famosa conclusão “Cogito,
ergo sun” (penso, logo existo).
A
capacidade racional e dedutiva do homem sempre foram apreciadas,
tanto na filosofia como na cultura, seja ela erudita ou popular.
Basta lembrar de Sherlock Holmes, o investigador que usa de
raciocínios dedutivos para resolver seus casos. Não poderia ser
diferente. Em decorrência da razão o ser humano transformou a si e
ao meio em que vive, colocando sua vontade sobre os demais seres
vivos.
Porém,
existem céticos. Estes questionam a centralidade da razão no viver
humano. Nelson Rodrigues é um deles. A passionalidade de seus contos
e a alta influência das emoções sobre as condutas mais
mirabolantes que as pessoas tomam nas construções narrativas marcam
devido esse excesso de “realidade humana” presente em suas obras.
É o amor avassalador que, de fato enlouquece, como no caso do conto
“O aleijado”, em que o marido prefere ver a esposa com o amante,
do que viver sem ela. As manias aprisionantes e sem sentido lógico,
como no conto onde um homem opta pelo suicídio a ter que lavar as
orelhas.
O
leitor ao se deparar com os contos rodriguianos se diverte pelo fato
de que aquelas narrativas ilógicas, fazem sentido. Ora, são
escritos tão ficcionais, que parecem realidade. Entendeu? Não. Que
bom! Creio que os textos de Nelson Rodrigues não são para serem
entendidos como livros de biologia ou física, são palavras que se
fazem sentir. Sentir raiva, tristeza, cinismo, alegria. Sentir, não
entender. É como se ele nos dissesse: amor é sentimento, não
conhecimento. Amem, percam-se, seus tolos! Isso tudo faz sentido:
sim, todo. Porque um dos traços mais humanos é a sensibilidade dos
instintos e emoções.
Um
leitor que para mim se parece com Nelson é Albert Camus (1913-1960).
Você pode está achando estranho. Logo Camus, com seus contos
trágicos e melancólicos como O Mito de Sísifo e
O Estrangeiro. Podemos
pensar que Nelson é um brincalhão e Camus um sorumbático. Errado!
Ambos são fúnebres e tentam em seus textos despertar
o ceticismo da razão. Se tentarmos compreender seus textos a partir
de análises racionais, eles morrem. Perdem o brio. Perdem a sedução
literária. Aceitar a frivolidade e o caos é condição para o
sentir desses autores.
Você
deve estar se perguntando: mas qual o sentido disso e como isso se
relaciona com o Direito? Primeiro, essa é uma pergunta típica de um
racionalista. O que quero dizer a você meu caro leitor
(principalmente estudante de direito) é que para
os autores certas coisas não
tem propósito. Não tem causa por trás. Não tem motivo. Apenas
acontecem.
O Direito como ciência racional tem dificuldade de lidar com
fenômenos passionais e a priori “ilógicos”.
E
por esse motivo que vejo tantos estudantes de direito estupefatos
diante do caos que são as audiências das varas de família.
Audiência de família não são aulas de matemática, onde dois mais
dois são quatro. Lá, dois e dois podem ser cinco, seis ou mesmo
nada. O Direito não sabe lidar com o caos, ele é produto da ordem.
É por isso que chamamos o conjunto de normas de “ordenamento”. É
por este motivo que vejo com desesperança pessoas que tentam
solucionar problemas emocionais por meio do Judiciário.
Querendo
ou não, juristas tentar racionalizar o irracional. Dar soluções
lógicas ao caos. E mesmo que isso pareça
infrutífero, continuamos fazendo isso dia após dia. Camus dá uma
lição amarga desse proceder jurídico em O Estrangeiro.
Jamais esqueçamos o resultado: a indiferença do mundo.
Acredito
que Nelson e Camus ao verem um jurista engravatado, deveriam ou sentirem incômodo ou tripudiarem, pensando consigo mesmo: o que esse homem sabe
do mundo?
Denisson Gonçalves Chaves
Professor de Direito (UFMA)
REFERÊNCIAS
Nelson
Rodrigues, A Vida como ela é (Nova Fronteira, 2013)
Martha
Nussbaum, Fronteiras da Justiça (Martins Fontes, 2013)
Albert
Camus, O Estrangeiro (Best Seller, 2010)
Albert
Camus, O Mito de Sísifo (Besta Seller, 2012).


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