UM CONCEITO DE LIBERDADE PARA ALÉM DO DIREITO – REFLEXÕES SOBRE SHINGEKI NO KIOJIN (ATAQUE DE TITÃS)
Por Denisson Gonçalves Chaves
Professor e Pesquisador pela Universidade Federal do Maranhão.
Observação inicial
Esse texto tem um público
direcionado: fãs do anime/mangá de Shingeki
no Kiojin (Ataque de Titãs). Você que ainda não leu o mangá ou assistiu o
anime terá sérias dificuldades de compreender o contexto desse ensaio. Por
isso, aconselho a ler após assistir pelo menos a primeira temporada, ou você
pode ler, assistir a primeira temporada e retornar ao escrito.
Introdução
“Eu
quero ser livre!”. Eis uma frase recorrente do personagem Eren Jeager do mangá/anime Shingeki no Kiojin, traduzido no Brasil
como Ataque de Titãs. O mangá é
escrito por Hajime Isayama, que considero um gênio no estilo artístico. Sim, eu sou muito admirador dessa obra
e ela constantemente me traz reflexões pesadas sobre a natureza humana, o
Estado e quem são nossos inimigos (se é que eles existem). Além de toda super
produção, do clímax construído de modo primoroso seja no mangá ou no anime,
Ataque de Titãs nos leva a pensar com emoções e questionar nossas principais
crenças. Existe uma miríade de conteúdos que podem ser abordados e pretendo
fazê-los, se assim tiver tempo e disposição no futuro. No momento, quero
destacar uma reflexão específica: Que tipo de Liberdade é essa que Eren Jeager
busca? Ela existe? É possível? E para não perdermos a identidade do nosso
espaço virtual, essa liberdade pode ser trazida através do Direito? Vamos refletir!
Brevíssima Narrativa de Shingeki no Kiojin
(Ataque de Titãs)
Shingeki no Kiojin conta a estória
não apenas de personagens isolados, mas da humanidade como um todo. Tanto é que
no começo, com a narração de Armin, ele utiliza o pronome “eles” (titãs) e
“nós” (humanidade). Ou seja, não é a estória de um sujeito que vai quebrar
todas as expectativas com superpoderes e o melodrama típico de alguns animes,
mas da humanidade e sua forma de (co)existir.
De acordo com a narrativa, a
humanidade vive segregada dentro de muralhas, tendo em vista que existem seres
monstruosos denominados Titãs, que são humanos gigantes, sem consciência e
sexo, que devoram humanos comuns (essa é a única função dos titãs – devorar
humanos). Os humanos vivem dentro de três muralhas: Maria, Rose e Sina (isso a
mais de 100 anos). O início do anime é marcado pelo aparecimento de dois tipos
especiais de titãs, denominados de Colossal, que tem mais de 60 metros de
altura, e Blindado, que apesar de ter 17 metros é coberto por uma blindagem
especial, ambos os titãs têm consciência e vontade. O Titã Colossal abre uma
brecha na muralha Maria gerando um caos e destruição sem limites.
Para contar a estória da
humanidade, Hajime usa três personagens principais: Eren Jeager, Armin Arlet e
Mikasa Ackerman. São três amigos basicamente inseparáveis. Ambos perdem tudo,
lar, família, segurança, moradia, etc. A partir daí se dá o desenvolvimento de
todo anime que gira em torno de alguns pontos: a) a perda da liberdade dos
homens devido a constante ameaça dos Titãs; b) os Titãs não representam apenas
ameaça à liberdade, mas a própria existência da humanidade; c) formas de lidar
com os conflitos internos e externos, pois, de um lado a humanidade luta contra
os titãs, de outro, luta contra problemas típicos dos homens: fome, ausência de
recursos, luta por poder, violência, doenças, entre outros; d) a ignorância do
homem em relação aos titãs dificulta seu modo de viver, pois não sabem sua
origem, sua finalidade ou mesmo se existe um “plano” por trás dos titãs (alguém
no comando).
Um espírito livre contra as muralhas
físicas e mentais
Eren é o “protagonista” da
estória. Ele demonstra uma insatisfação relutante [1] com o fato da humanidade
de certo modo ter se acomodado aquela situação de (sobre)viver dentro das
muralhas. A inquietação de Eren é que as pessoas amoldaram-se a subsistência,
como se não houvesse algo além daquele estilo de vida. Em síntese, Eren
questionava o fatalismo e a apatia da humanidade perante as circunstâncias
extremamente adversas que enfrentavam. Aqui já podemos fazer uma análise mais
fundamentada das críticas de Eren ao seu mundo. Iniciemos pelo fatalismo.
O fatalismo é uma concepção de
mundo que considera os fatos como deterministas e irrevogáveis. Ou seja, os
fatos acontecem e não existem meios de mudá-los, cabe tão somente adaptar-se e
aceitá-los. O fatalismo é muito presente na mitologia grega para descrever que
os homens não tem muito o que fazer contra a vontade dos deuses. Podemos
descrever o fatalismo com duas características básicas: determinista e
metafísico. Ele é determinista porque o “destino”, o “futuro” já está
previamente estipulado, não havendo maneira de mudá-lo. Logicamente, uma mente
racional indagaria: ora, mas quem determinou tudo isso? A resposta dos teóricos
fatalistas é sempre metafísica, ou seja, para além de algo físico: os deuses, o
cosmos, a ordem da natureza, o destino. Todos elementos abstratos que não se
tem como verificar se é determinável por eles ou não. Assim, o fatalismo é uma
concepção – uma espécie de crença.
Eren, como um amante incontrolável
da liberdade, vai se opor veementemente contra o fatalismo da humanidade.
Perceba que o contrário lógico da liberdade não é a escravidão, mas o
fatalismo, pois ele se apresenta como uma amarra ideológica do sujeito,
produzindo efeitos na forma de pensar e de agir dos agentes. Uma postura
fatalista mortifica qualquer desejo de mudança, pois não acredita nela. Cabe ao
homem aceitar a realidade das coisas e desfrutar (ou angustiar-se) o máximo possível
da atual existência.
O segundo elemento de incômodo
do espírito livre de Eren é a apatia[2] dos homens perante o estado de cárcere
em que viviam. O fatalismo leva a uma desesperança, a uma visão hermética da
existência como um conjunto imutável de leis e sentenças. A apatia aparecia
assim como uma resposta psicológica ao fatalismo. Pode-se de dizer, com muito
perigo, que a apatia seria a consequência do pensar fatalista. Entretanto, a
apatia não é uma realidade psicológica unidimensional, ela é múltipla,
acompanhada de medo, paralisia e tédio. É muito emblemática uma cena em que
Eren discuti com Hannes (membro da polícia militar de proteção da Muralha)
quando o último se encontrava trabalhando alcoolizado e responde a Eren “não tem nada para fazermos aqui garoto!”.
Diante de uma situação de precariedade existencial os homens acomodaram-se a
situação. Não pensavam em saídas para o atual estado, conformaram-se com o status quo. Adotaram o chamado carpe diem, isto é, a filosofia de viver
o homem tão somente regozijando-se com o momento presente, visto que, seus
destinos eram dois: ou morrer pelos titãs ou morrer dentro das muralhas. Os
homens escolheram a segunda opção.
A alegoria das muralhas é
espetacular para trazer a mensagem do cerceamento da liberdade. A muralha
representa tanto uma limitação física – liberdade de locomoção, de ir e vir –
como uma limitação mental. É justamente nesse segundo ponto que Eren foca sua
crítica: um inimigo sorrateiro da liberdade é quando a ideia de proteção na
verdade é uma visão aprisionadora do pensar e do agir. É a velha luta da
ciência política entre a segurança (proteção) de um lado e a liberdade de
outro. Se refletirmos bem, a fundamentação dos Estados modernos, especialmente
os contratualistas, baseia-se nesse binário: em nome da segurança e de evitar que todos matemo-nos uns aos outros,
abdiquemos de parte de nossa liberdade para então, sermos, seguros. Não
existe nada de novo sobre isso. Hobbes, Locke e Rousseau que o digam[3].
Hajime, através de Eren, questiona esse pressuposto contratualista de sua
promessa de segurança. Afinal, será se um dia poderíamos viver sem muralhas?
Pergunta-se Eren no seu íntimo. (Afinal, será se um dia poderíamos viver numa
forma de Estado que não seja contratualista? Pergunto eu a você).
O que é a Liberdade para Eren?
No episódio 12 e 13, intitulado
respectivamente de “Ferida” e “Desejo Primário”, descrevem um diálogo
incrivelmente forte entre Armin e Eren. Eren está em “coma” e Armin tenta
acordá-lo e incentivá-lo a lutar através da seguinte conversa:
Eren: porque eu preciso sair lá fora? É
mesmo...por que eu preciso sair? por que a tropa de exploração?
Armin: Um dia nós vamos...ver o mundo lá fora,
não vamos? Muito longe dessas paredes. Um mar de fogo...terras de gelo...e
planícies de areia. O mundo para o qual meu pai e minha mãe tentaram
ir...Pensei que você tinha esquecido...mas você não falava mais disso... [...].
Eren: O mundo lá fora...
Armin: Eren! Me responda! Um passo para o exterior
das muralhas, e terá um mundo infernal nos aguardando lá fora. E talvez
morreremos cruelmente como meu pai e minha mãe...Então porquê...você quer tanto
conhecer o mundo?
Eren: Por que? Isso é óbvio...É porque eu nasci
neste mundo!
Primeiramente é sabido Armin é
um dos personagens mais inteligentes do anime. Sua inteligência não é apenas
lógica (matemática e dedutiva), mas acima de tudo, emocional. Por vários
momentos Armin é convocado a resolver problemas de impasses entre os humanos e
os titãs. Se você assistir com cuidado, perceberá que não é o raciocínio lógico
que faz Armin derrotar argumentativamente seus oponentes, mas a compreensão
sobre a natureza humana, especialmente o medo e a esperança. Ora, não é essa a
postura dos principais filósofos? Não foi sobre a natureza humana (antropologia
filosófica) que escreveram Sócrates, Platão, Aristóteles, Hobbes, Kant etc?
Armin não deixa de ser um pensador nato. Note também como para incentivar Eren
a lutar Armin utilizar do mesmo instrumento de Sócrates: a pergunta – a
maiêutica. “Afinal Eren, o que tu
queres?”, assim poderia ser resumido o diálogo. O método por excelência da
filosofia é a problematização. E não basta problematizar por problematizar.
Para fazer alguém lutar por algo é preciso dar sentido a luta. Tal sentido só é
encontrado dentro de si. Vale o adágio: conhece-te a ti mesmo. Portanto, o
diálogo poderia ser resumido em: O que tu
queres Eren? Diga-me? Conhece-te a ti mesmo e diga-me o que pretendes?”.
Se
você tem certa familiaridade com a Filosofia, deve ter notado que esse diálogo
também se parece muito com outra alegoria contada por um filósofo grego
bastante conhecido: a caverna de Platão. Como assim, você deve estar se perguntando? Simples, vou explicar e talvez você concorde comigo, ou no mínimo
me compreenda.
Platão
escreveu a alegoria da caverna na obra A
República. É uma parábola bem conhecida de homens que nasceram e cresceram
no interior de uma caverna. Eles são presos por correntes e ficam de costa para
entrada, sem poder mover-se, forçados a olhar somente para o fundo da caverna.
Não podem ver a si mesmos, nem os demais. O máximo que os prisioneiros podem
ver são sombras e sons das pessoas que estão fora da caverna. Por não
conhecerem o mundo pelo lado de fora, acabam por concluir que tais sombras e
sons são a realidade. Isso é tudo que existe para eles. Uma vez que um
prisioneiro se libertasse, ao olhar para o sol, sentiria medo e voltaria para
caverna. Caso voltasse para caverna na intenção de libertar seus companheiros,
poderia acabar morrendo, pois os prisioneiros não acreditariam nele, sendo
então rejeitado.
Existem inúmeras interpretações
possíveis à alegoria da caverna de Platão pela riqueza que ela representa. Mas
aqui quero centralizar como as Muralhas em Ataque de Titãs em muito se parece
com tal alegoria. Para aqueles que nasceram dentro das Muralhas o real é apenas
o que existe dentro delas. Até mesmo pensar no que existiria do lado de fora é
visto como algo perigoso (Armin já foi recriminado por isso, até apanhava de
outras crianças). As correntes que aprisionam a humanidade não são correntes
físicas, mas cognitivas e ideológicas. É a corrente do medo de morrer pelos
titãs. É a crença de que o lugar mais seguro, ou o único lugar seguro, seria
dentro das Muralhas e tudo o que importava estava ali. A tropa de exploração –
que eram soldados treinados para explorar fora das Muralhas – eram maus vistos,
questionados, refutados. Ao chegarem de suas peregrinações, eram acusados de
homens suicidas, que gastavam o dinheiro do “Estado” para ir numa operação
inglória. Não esqueçamos que as Muralhas eram tidas também como “divinas” ou
como um “objeto religioso”, tamanha é a importância que a humanidade concede a
elas. Defendo aqui que na verdade Hajime Isayama cria sua própria alegoria, nos
mesmo moldes de Platão: alegoria das Muralhas. Só que diferente de Platão,
Hajime cria um ambiente onde o perigo é real, visível e sensível, causando
muito mais terror do que um mundo de sombras e sons.
Armin pergunta a Eren: porque você quer conhecer o mundo?
Vejamos bem. Armin usa a palavra conhecer.
Claramente temos uma perspectiva de uma filosofia da experiência. A resposta de
Eren é forte e pontual: Não é obvio!
Porque eu nasci neste mundo!”. Digamos que a resposta de Eren é um
argumento naturalista e absoluto. Para o Direito (Teoria Geral e Filosofia do
Direito) isso tem uma importância que não pode ser medida. Podemos analisar a
resposta de Eren sob uma perspectiva transcendental da dignidade do homem e
pelo viés cosmopolita. Iniciemos pelo último argumento: dizer que é um
argumento cosmopolita significa que Eren rejeita soberanias ou forças externas
lhe retirem a característica de cidadão desse mundo, portanto, com direito de
desfrutas das benesses que ele pode oferecer. O mundo não pertence aos titãs
(pelo menos somente). Não devo me contentar com um simples pedaço de terra e
uma vida acovardada atrás de Muralhas, ele se reconhece como cidadão do mundo e
com direito de nele viver livremente.
O argumento da transcentalidade
da dignidade humana é um conhecido argumento Kantiano [4], de que o homem é um
fim em si mesmo, não é instrumento de outrem, nem pode ter sua dignidade
diminuída para satisfazer interesse de outrem. É chamado de argumento
categórico ou absoluto porque o seu fim está em si mesmo, um objetivo a priori. A resposta de Eren lembra
muito a proposição do Direito Natural de bens básicos dos homens, sendo os principais:
a vida e liberdade.
Todavia, o conceito de
Liberdade de fato de Eren aparece logo depois, quando ele faz um dos discursos
mais emocionantes do anime e pensa consigo mesmo, chegando a conclusão do que
seja Liberdade:
Eren: Desde o momento em que nascemos, somos
livres. Não importa quão forte sejam aqueles que negam essa liberdade. Águas em
chamas, terra congelada [...] não ligo o que seja! Aquele que as vê será a
pessoa mais livre do mundo. Lute. Eu ofereci minha vida para isso. Não importa
quão aterrorizante seja o mundo. Não importa quão cruel seja o mundo.
Lute...Lute...Lute.
A fala de Eren é marcada por
ideias de um Direito Natural à Liberdade e a Vida, bem como a ideia Kantiana de
ser humano como fim em si mesmo. Esse trecho poderia muito bem pertencer a
qualquer filósofo iluminista que defendesse as liberdades individuais na época
de revolução contra o Antigo Regime absolutista. Ora, a Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão de 1789, afirma em seu primeiro artigo: “Os homens nascem e são livres e iguais em
direitos”. Veja bem, é exatamente isso que era diz: nascemos livres, e por
sermos iguais, ninguém (nem mesmo os titãs) tem o direito de limitar nossa
liberdade.
Achamos uma primeira pista para
o conceito de liberdade de Eren, ou seja, aproxima-se de um conceito de Direito
Natural. Esse direito, caracterizado como Natural, rege-se por uma Lei Natural,
isto é, uma lei para todos os homens (universal). Costumeiramente, nos
primeiros anos de Direito, se aprende sobre Direito Natural comparando-o com o
Direito Positivo. Uma das principais distinções é que no Direito Positivo
existe uma autoridade marcante, que monopoliza a produção de normas que
regulamentam a sociedade (o Estado). Essa autoridade referencial é diminuída ou
inexistente no Direito Natural. O fundamento de um Direito Natural está na
razão e na história, não na lei ou em algum ato de autoridade demarcado no
tempo e espaço. Eren não luta pelo seu monarca (o anime se passa num regime
monárquico), ele luta por sua liberdade no sentido mais profundo – liberdade de
existir, ou como diz a Declaração dos Direitos do Homem (1789), no artigo 4,
Eren luta pela possibilidade de fazer tudo que não prejudique outro (conceito
de Liberdade da Declaração).
A liberdade que Eren suscinta é
uma liberdade em sentido forte, mesmo sentido que fundamentou a construção dos
direitos liberais (vida, liberdade, segurança e propriedade). É também uma liberdade
filosófica e existencial. Apesar da primeira ter mais relação com o Direito e
ser trabalhada continuamente pelo jusnaturalismo [5], eu me concentrarei na
segunda abordagem: a existencial.
Sendo assim, a partir de agora
passo a defender a tese de que a liberdade que Eren busca (doravante chamada de
“Liberdade de Eren”) é uma liberdade atinente a um conceito existencial, ou
seja, pertinente ao existencialismo, e pretendo apresentar argumentos para
justificar essa minha afirmação. Posteriormente, no próximo ponto, procurarei
comentar se essa liberdade de Eren adequa-se ao Direito, em síntese: o Direito
está apto para trabalhar (ou adotar) um conceito existencialista de Liberdade?
Pois bem, ao afirmar que a
liberdade de Eren é um conceito existencial estou querendo significá-la pelo
viés do existencialismo. Este pode ser definido como uma corrente filosófica
cujo ponto central seja a precedência do existir sobre o ser. Ela nasce com
filósofo dinamarquês Kierkegaard, e alcança grande divulgação com Jean Paul
Satre, a quem me deterei um pouco.
Para Sartre a Liberdade tem um
conceito radical: o homem em sua existência está condenado a ser livre. Essa é
a condição do sujeito e não há nada que possa retirá-lo dessa condição. Nada
poder retirar o homem a opção pela escolha – a escolha é um elemento intrínseco
do sujeito. Nesse sentido, a existência precede a essência. Primeiro, o homem
existe no mundo, depois se realiza nele. O homem nasce no mundo - veja bem, a
mesma frase que Eren usou para justificar porque quer ir além das Muralhas -
mas ele não escolhe onde nascer, quando ou como. Ele apenas nasce. Ele apenas
existe. O primeiro passo é o existir. Logo após essa existência é que o homem
procurará dá significado e sentido a sua existência. E disso ele não pode se
esconder ou arredar. Ele deve escolher o que ele quer ser. A Liberdade é assim
uma realidade incontornável: “o homem está condenado a ser livre”.
Pode parecer que o
existencialismo tem algo de lúgubre e fatalista também[6], ao afirmar que o
homem é condicionado a liberdade. Essa é uma postura pessimista do
existencialismo. Porém, é possível também defender uma postura distinta, uma
ação ativa da vida, pois Sartre deixa claro que a liberdade nos coloca como
centro de nossas ações, não podendo terceirizar a culpa para qualquer outro ser:
Deus, natureza, problemas, condições materiais, psicológica ou espirituais.
A existência coloca o homem
como único e total responsável pelo o que ele é. E aqui está uma evidência para
meu argumento de Eren defender uma liberdade existencialista. Verifiquemos bem
ao término se sua fala, Eren diz “desde o
momento em que nascemos somos livres”. Igualmente a defesa de Sartre em O Existencialismo é um Humanismo (1978).
Não aceita qualquer tipo de limitação a essa liberdade, mesmo que ela seja mais
forte ou aterrorizante. Não faz diferença. Eren não pode abdicar da sua
liberdade, pois entende que isso é impossível – como ele diz: É óbvio. Diante dessa angústia de sua
liberdade avassaladora sobra-lhe o caminho da luta. Sim, lutar por sua
existência, pela capacidade de se definir, de ir onde quiser ir, de
desenvolver-se ao extremo que sua alma anseia. A luta pela liberdade não é um
projeto de vida para Eren, é a própria vida.
O Direito e a(s) Liberdade(s): ou porque ir além do Direito
Nesse momento, passo a discutir
a possibilidade do conceito de Liberdade de Eren para o Direito, leia-se: o
conceito de Liberdade existencial de Direito é possível no interior do Direito?
Sei que vários ângulos poderiam
ser avaliados no anime por uma ótica jurídica. E outras áreas, Filosofia,
Lógica, Ciência Política, etc. Até aqui centralizei a discussão num aspecto
quase que todo filosófico, poucas reminiscências do Direito. Todavia, acredito
que me mantive fiel ao que penso ser a “autêntica” ciência jurídica: uma
interlocução de saberes de modo dialógico. Agora passo a uma contribuição,
mesmo que breve, para o Direito.
O primeiro detalhe a se
considerar é que o Direito assume vários conceitos distintos de liberdade. Não
existe para o Direito um conceito pronto de liberdade. Uma classificação
tradicional é entre a liberdade positiva e a liberdade negativa, nesse ponto,
importante é contribuição de Isaiah Berlin, que em 1958, escreve o ensaio Dois Conceito para Liberdade,
argumentando que quando as pessoas falam em Liberdade, podem se expressar a um
conceito negativo e positivo de liberdade. O primeiro conceito - liberdade
negativa - diz respeito a liberdade de escolher como gerir sua vida sem
intervenção de terceiro, por isso é negativa, pois subtrai do conceito ações de
interventores. A liberdade positiva, por sua vez, vincula-se com o desejo de
indivíduo de ser seu próprio senhor. Em suas palavras:
O primeiro sentido político de liberdade,
que (com base em muitos precedentes) chamarei de "negativo", vem
incorporado na resposta à pergunta "Qual é a área em que o sujeito - um
indivíduo ou um grupo de indivíduos - está livre, ou se deveria permitir que
fosse, da interferência dos outros?" O segundo, que chamarei de positivo,
vem incorporado na resposta à pergunta "O que ou quem é a fonte de
controle ou de interferência que pode determinar que alguém faça, ou seja, uma
coisa e não outra.
Como se verifica nenhum desses
conceitos satisfaz plenamente a necessidade da Liberdade existencial de Eren. Digo
plenamente porque, percebe-se que Berlin parte da relação de obediência e
coerção para definir as liberdades, querendo ou não, o Direito também usa essa
metodologia. A liberdade não é definida em si mesmo, mas sempre se referindo a
seu antagonismo, que seja: a coerção. Podemos supor sim que os titãs seriam
essa força cogente, porém não são de modo perfeito, porque não se trata de uma
coerção por via de obediência (como requer o Estado), mas coerção por via de
anulação. Os titãs não querem que a humanidade os obedeçam, mas que ela seja
aniquilada. O Direito se aplica como forma de manutenção da crença na
estabilidade das relações sociais, ou seja, ele admite sim a violência, não só
admite como monopoliza ela, mas isso respeitando o limite de que não pode ser
usada para uma aniquilação total. Qualquer Direito que permita a aniquilação do
outro perde o sentido de si, mas abandona o seu objeto primordial: a vida
humana.
A radicalidade da situação em
que se encontra Eren requer também um conceito radical de liberdade. Aqui serei
cético com relação a alguns autores e concordarei com Hélvecio de Oliveira
Azevedo, ao afirmar que “o existencialismo é antijurídico por excelência”. E
diz mais “Direito e existencialismo não se tocam, são compartimentos estanques:
afirmar um é negar o outro”. E o que quero dizer com isso: a Liberdade que Eren
deseja não poderá ser alcançada pelo Direito, pois está além dele. É por esse
motivo que ele não procura as instituições para sanar sua angústia perante um
mundo derrotado e acomodado. A única coisa em que ele acredita é em sua própria
história como projeto de vida reformador e transformador da sua existência. Ele
só acredita na luta.
Mas então qual o significado do
Direito para existência humana? O que o Direito tem a ver com a Liberdade de Eren
e a Liberdade de Eren tem a ver com o Direito? Apesar de não acreditar que a
Liberdade de Eren venha pelo Direito, não nego que ele desempenhe um papel
funcional de sumária importância e que não pode ser negado. Lembremos, Eren não
luta sozinho. Ele guerreia contra os titãs ao lado de pessoas (amigos e
inimigos). A ideia de humanidade somente existe porque existe laços jurídicos
entre eles. Mesmo que Eren deseje escapar do Direito, não pode, pois ubi societas, ubi jus (onde há sociedade, há
o Direito). A sociedade existe nas Muralhas, lá está Eren, lá está o
Direito. E ainda que ele derrube as Muralhas, que ele vá além delas, enquanto
houver humanidade, haverá Direito. Porém, seja pelo Direito, ou pelas próprias
mãos (além do Direito) o método para existência dos seres humanos parece ser
apenas um: LUTAR (Tatakae).
* * *
[1] Uma das músicas da primeira
temporada se chama “reluctant heroes”.
Fazendo alusão aos personagens principais. Em um das passagens da canção diz “The peaceful times have made us blind Can't
look back, they will not come back Can't be afraid, each time after time So
once again, I'm hiding in my room The peaceful times have made us blind”.
Cuja tradução é: “Os tempos de paz nos deixaram cegos. Não podemos olhar para
trás, eles não retornarão. Não podemos ter medo todas vezes. Então mais uma
vez, eu estou me escondendo em meu quarto. Os tempos de paz nos deixaram cegos”.
[2] O conceito de apatia é bem
trabalhado pelo psiquiatra Viktor Frankl em sua obra maior Em busca de Sentido, em que fala de suas experiências nos campos de
concentração nazista e descreve a apatia dos sujeitos perante um estado de brutalidade
e sofrimento alheio.
[3] Hobbes, Locke e Rosseau são
conhecidos como contratualistas, pois ao elaborar suas teorias políticas,
utilizam de três elementos básicos: o estado de natureza, onde o homem encontra
em seu estado primitivo; o contrato social, onde os homens convencionam o
estabelecimento de vínculos (jurídicos e políticos) estabelecidos através de
abdicação de parte de sua liberdade natural e o governo civil, estado
pós-contrato, onde vige os direitos e deveres.
[4] Kant é um dos principais
fundamentadores do princípio da dignidade da pessoa humana como uma norma
categórica, ou seja, com um fim em si mesmo.
[5] Jusnaturalismo é uma
corrente do pensamento jurídico baseado no Direito Natural, como algo imutável,
universal e o pressuposto do homem como um sujejto racional e dotado de
direitos intrínseco.
[6] Tanto Kierkegaard como
Sartre falam dessa angústia como um elemento da realidade humana em seus
escritos.
Referências
AZEVEDO, Helvécio de Oliveria.
Existencialismo e a Filosofia do Direito. Revista da Faculdade de Direito da
UFMG. Disponível em: https://www.direito.ufmg.br/revista/index.php/revista/article/viewFile/699/659.
BERLIN, Isaiah. Dois conceitos
de Liberdade.
CAMINHA, Lucas. A Liberdade em
Jean-Paul Sartre: responsabilidade, angústia e má-fé. Disponível em:https://colunastortas.com.br/jean-paul-sartre/
KANT, Emmanuel. Doutrina do
Direito.
KANT, Emmanuel. Fundamentação
da Metafísica dos Costumes.
PLATÃO. A República.
SARTRE, Jean-Paul.
Existencialismo é um humanismo.

isso ta impecável! parabéns.
ResponderExcluirdê um livro de filosofia a alguém do direito e o veja não saber nem o nome do autor direito.
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